Acordo de um sono mal dormido...
O coração aos pulos e um grito seco, áspero e mudo preso na minha garganta...
Cenas finais de um temido pesadelo...
Levanto da cama improvisada com trapos de cobertor e lençóis no chão de um quarto imundo...
Tateio com indecisão os buracos no chão causados pela falta de taco.
A cada passo mal dado chuto uns poucos tacos de madeira velha, soltando-os com facilidade. O coração a palpitar num escândalo de tensão.
Abro a porta à procura. Ainda estão lá! No canto da sala de paredes mofadas e com infiltrações aparentes, se encontra um sofá. Se é que ainda posso chamá-lo assim. Uma mobília com uma falta considerável de espumas (como eu de esperanças)
e com suas molas saltando, como os miolos de um moribundo cadáver a espera de novas idéias sobre eternidade... Mas, ainda estão lá!
Inspiro profundamente, e expiro o ar expulsando junto a tensão que me tomava o espírito. Ainda estão lá minhas crianças, meus anjos, meus filhos com seus corpinhos frágeis, puras miniaturas inocentes de pequenos gigantes prepotentes, sem esperança e sem rumo como eu. O mais velho tem onze anos. Quando tinha apenas sete, seu pai foi condenado a passar alguns anos longe. Por furto, o pai dele (eu) foi afastado temporariamente da família. Quando retornou ele já tinha quase dez anos. Hoje já é o homem da casa. E com o passar dos anos também se afastará temporariamente da família. Só a esperança o poderá salvar. A esperança, que ironia. Hoje dormem como uns anjos salvadores olhados por algum Deus. São uns pequenos sonhadores com esperanças. Mas quem espera, nunca alcança. Alcança sim, algumas migalhas de ilusões que nos mantém um pouco mais esperançosos. E, assim, de migalha em migalha, de esmola em esmola vamos seguindo a espera de alguma eternidade...
O coração aos pulos e um grito seco, áspero e mudo preso na minha garganta...
Cenas finais de um temido pesadelo...
Levanto da cama improvisada com trapos de cobertor e lençóis no chão de um quarto imundo...
Tateio com indecisão os buracos no chão causados pela falta de taco.
A cada passo mal dado chuto uns poucos tacos de madeira velha, soltando-os com facilidade. O coração a palpitar num escândalo de tensão.
Abro a porta à procura. Ainda estão lá! No canto da sala de paredes mofadas e com infiltrações aparentes, se encontra um sofá. Se é que ainda posso chamá-lo assim. Uma mobília com uma falta considerável de espumas (como eu de esperanças)
e com suas molas saltando, como os miolos de um moribundo cadáver a espera de novas idéias sobre eternidade... Mas, ainda estão lá!
Inspiro profundamente, e expiro o ar expulsando junto a tensão que me tomava o espírito. Ainda estão lá minhas crianças, meus anjos, meus filhos com seus corpinhos frágeis, puras miniaturas inocentes de pequenos gigantes prepotentes, sem esperança e sem rumo como eu. O mais velho tem onze anos. Quando tinha apenas sete, seu pai foi condenado a passar alguns anos longe. Por furto, o pai dele (eu) foi afastado temporariamente da família. Quando retornou ele já tinha quase dez anos. Hoje já é o homem da casa. E com o passar dos anos também se afastará temporariamente da família. Só a esperança o poderá salvar. A esperança, que ironia. Hoje dormem como uns anjos salvadores olhados por algum Deus. São uns pequenos sonhadores com esperanças. Mas quem espera, nunca alcança. Alcança sim, algumas migalhas de ilusões que nos mantém um pouco mais esperançosos. E, assim, de migalha em migalha, de esmola em esmola vamos seguindo a espera de alguma eternidade...
O pesadelo que me engole a alma no sono e na falta dele, é justamente a desesperança.
Errante. Do princípio ao fim. Fui destinado a uma vida torta, cheia de buracos e cadáveres no caminho. Cansei de esperar a solução... Cansei das ilusões...
O desemprego, a falta de dinheiro, os crimes e roubos necessários, os olhares críticos da mulher amada, a magreza das crianças e seus olhos frios e vazios pela falta de um pai. Prover a família...
Quais sãos os atos desesperados que um homem é capaz de fazer para prover a cria, para se por eterno prensando resíduos de sua pobre existência na estrada dessa vida? Aos poucos, vamos vendendo nossos bens necessários, vendendo nossas mais sinceras qualidades, nossa juventude, nossos poucos prazeres...
E sobrevivendo. Daí, diante da gravidade, vamos perdendo nosso espírito, vendendo nossos sorrisos, nosso corpo, nossa alma. Esses dois últimos... Só me restavam esses...
Inevitavelmente, os barganharei também!
Errante. Do princípio ao fim. Fui destinado a uma vida torta, cheia de buracos e cadáveres no caminho. Cansei de esperar a solução... Cansei das ilusões...
O desemprego, a falta de dinheiro, os crimes e roubos necessários, os olhares críticos da mulher amada, a magreza das crianças e seus olhos frios e vazios pela falta de um pai. Prover a família...
Quais sãos os atos desesperados que um homem é capaz de fazer para prover a cria, para se por eterno prensando resíduos de sua pobre existência na estrada dessa vida? Aos poucos, vamos vendendo nossos bens necessários, vendendo nossas mais sinceras qualidades, nossa juventude, nossos poucos prazeres...
E sobrevivendo. Daí, diante da gravidade, vamos perdendo nosso espírito, vendendo nossos sorrisos, nosso corpo, nossa alma. Esses dois últimos... Só me restavam esses...
Inevitavelmente, os barganharei também!
O prédio onde moramos (eu, minha esposa e minhas duas crianças) é um antigo prédio do governo.
Foi abandonado há alguns anos. Pouca a pouco, fomos invadindo.
Famílias como a minha, esperançosos desesperados de tanto esperar.
Um a um, fomos preenchendo o espaço interno daquele grande corpo de concreto que, com o passar dos anos, foi se tornando pequeno.
Daqui alguns meses o prédio será demolido pela prefeitura! No seu lugar vão erguer um pequeno parque com uma imponente torre em homenagem aos mortos de guerra.
Com isso, centenas de famílias como a minha ficarão desabrigadas.
Foi abandonado há alguns anos. Pouca a pouco, fomos invadindo.
Famílias como a minha, esperançosos desesperados de tanto esperar.
Um a um, fomos preenchendo o espaço interno daquele grande corpo de concreto que, com o passar dos anos, foi se tornando pequeno.
Daqui alguns meses o prédio será demolido pela prefeitura! No seu lugar vão erguer um pequeno parque com uma imponente torre em homenagem aos mortos de guerra.
Com isso, centenas de famílias como a minha ficarão desabrigadas.
Dormi toda a tarde, eu não queria! Sempre a mesma desculpa... Fui à igreja!
Muitos anos não piso em uma...
Não acredito nelas, nem em Deus, muito menos em padres...
“Padre, eu pequei!”
Gargalhadas sairiam da larga boca que se encontra entre as cicatrizes do meu rosto, se o medo não houvesse tomado antes, todo o meu estado de espírito, calando assim, qualquer ironia...
O medo, pouco a pouco, foi dando espaço a um grande vazio. Um frio e vazio coração. “Padre, um homem me ofereceu cinqüenta mil pelo meu corpo, pela minha vida. Hoje, ao final do dia, entrarei num grande galpão no centro da cidade.
Lá, um grupo de homens me espera. Esses homens vão espancar minha carne e meus ossos até a morte, diante de uma seleta platéia. Vão espremer meu corpo até que nele eu não exista mais...
Um esporte interessante! Excêntrico! O ser humano é capaz de tudo para se sentir no poder. Para se sentir forte. A força do caçador sobre sua caça. Mas, sempre chega a hora de ser caça... Suicídio? Sim. Ora, mas as prostitutas vendem o próprio corpo e a igreja lhes concede o perdão. É apenas uma questão de diferença de finalidades. Vendemos nossas almas a cada segundo da vida desde o momento em que dispomos de uma. E por esse simples serviço, receberei cinqüenta mil, ou melhor, minha família o receberá. Não é uma grande quantia, mas o suficiente para saírem daquele buraco onde vivemos”.
Muitos anos não piso em uma...
Não acredito nelas, nem em Deus, muito menos em padres...
“Padre, eu pequei!”
Gargalhadas sairiam da larga boca que se encontra entre as cicatrizes do meu rosto, se o medo não houvesse tomado antes, todo o meu estado de espírito, calando assim, qualquer ironia...
O medo, pouco a pouco, foi dando espaço a um grande vazio. Um frio e vazio coração. “Padre, um homem me ofereceu cinqüenta mil pelo meu corpo, pela minha vida. Hoje, ao final do dia, entrarei num grande galpão no centro da cidade.
Lá, um grupo de homens me espera. Esses homens vão espancar minha carne e meus ossos até a morte, diante de uma seleta platéia. Vão espremer meu corpo até que nele eu não exista mais...
Um esporte interessante! Excêntrico! O ser humano é capaz de tudo para se sentir no poder. Para se sentir forte. A força do caçador sobre sua caça. Mas, sempre chega a hora de ser caça... Suicídio? Sim. Ora, mas as prostitutas vendem o próprio corpo e a igreja lhes concede o perdão. É apenas uma questão de diferença de finalidades. Vendemos nossas almas a cada segundo da vida desde o momento em que dispomos de uma. E por esse simples serviço, receberei cinqüenta mil, ou melhor, minha família o receberá. Não é uma grande quantia, mas o suficiente para saírem daquele buraco onde vivemos”.
Deixo a igreja e sigo meu destino.
Vou sumindo do alcance dos olhos indignados do sacerdote de Deus, parado à porta da igreja mirando seus pensamentos em minha direção.
Vou desaparecendo na multidão de desesperados que, como eu, vendem suas almas baratas ao menor preço, sem muito reclamar.
Mas, a minha venda não é uma metáfora. E, como todas elas, não tem volta.
Vou sumindo do alcance dos olhos indignados do sacerdote de Deus, parado à porta da igreja mirando seus pensamentos em minha direção.
Vou desaparecendo na multidão de desesperados que, como eu, vendem suas almas baratas ao menor preço, sem muito reclamar.
Mas, a minha venda não é uma metáfora. E, como todas elas, não tem volta.